
Os últimos acontecimentos em minha vida me fizeram refletir sobre um aspecto que creio que incomode muita gente: e se eu tivesse feito tudo diferente? Como estaria minha vida se, em certo momento crucial, tivesse virado à esquerda ao invés de ir para a direita, ou se tivesse dito determinada coisa a determinada pessoa ao invés de ter ficado calado? Como eu estaria hoje caso tivesse optado por algum outro curso de graduação, ou se tivesse investido mais em um relacionamento? São questões que imagino que todo mundo deva se perguntar, e que, sem dúvida, causa um certo sentimento de agonia.
Tal agonia é facilmente compreensível. Afinal de contas, perguntas do tipo das que fiz acima, utilizando a palavrinha se como conjunção subordinativa condicional, têm em comum o fato de não possuírem uma resposta convincente. Por mais que imaginemos respostas, não podemos comprová-las empiricamente, já que não se pode voltar no tempo.
Esses questionamentos - se alguma coisa, como estaria a outra coisa? - geralmente surgem em momentos em que algo não vai bem. Partindo do pressuposto de que a condição humana não permite uma felicidade plena e incondicional, tendemos a nos fazer estas perguntas com frequência.
Ainda, há de se observar a fé das pessoas, ou mesmo a falta dela. Alguns indivíduos costumam driblar a agonia das if questions pela crença num planejamento divino, em que todos nascemos com um destino traçado. Me desculpem os que seguem essa vertente, mas eu enxergo tal posicionamento como sendo bastante pragmático, no mau sentido, e ingênuo. É claro que existe uma série de constrangimentos morais, sentimentais, instintivos e culturais que nos impede de agir de determinadas formas e, até certo ponto, torna nosso comportamento bastante previsível. Contudo, no limite, nada nos impede de dizer o que bem entendermos, de nos jogarmos do alto de um prédio ou de manifestarmos qualquer sentimento ou opinião. E é justamente por isso que acredito no livre-arbítrio.
Como alguns olhos mais atentos devem ter percebido, a ilustração no início deste post é uma figura da deusa romana Fortuna (equivalente a Tyche na mitologia grega), que representava não a bonança financeira, mas a sorte. Vale ressaltar que sorte, nesse sentido, não significa a boa sorte como nos acostumamos na língua portuguesa, mas remonta uma noção de destino, de imprevisibilidade do porvir. Daí a ilustração da deusa sobre uma esfera, o que leva ao pensamento de que ela não tem controle sobre o caminho que segue. Por analogia, pode-se concluir que representa a possibilidade infinita, ou seja, o acaso. Maquiavel, em O Príncipe, refere-se à Fortuna como uma metade da vida humana, presente na formação de contextos, situações e outras coisas sobre as quais não se pode ter controle. A outra metade se dá na Virtú, que é a vontade humana, ou a maneira como o homem lida com o acaso incontrolável.
Levando estes fatores em consideração e tendo inabalável fé nas doutrinas maquiavélicas, acredito que não adianta nada pensar no se, na possibilidade que não aconteceu e que pode um dia acontecer, mas não nas mesmas condições e nem da mesma forma. O que nos cabe, em nossa pobre condição humana, é lidarmos da melhor forma possível com os acontecimentos, e agirmos da forma que julgamos ser a mais correta, pois é sobre isso que temos controle. O passado serve apenas como aprendizado. É através dele e a partir dele que nos tornamos quem somos hoje. Cada alegria, tristeza, sucesso, fracasso, surpresa ou frustração é um pequeno tijolo na construção de nosso caráter, de nossos princípios e atitudes.
No fim das contas, devemos mesmo é nos preocupar com a maneira como enfrentaremos o que teremos pela frente. E se tem algo que não fizemos e que nos arrependemos de não ter feito, bom... quem sabe ainda não há tempo para fazer?
POST-SCRIPT: Peço desculpas pelo longo período sem atualizações. Diversas tarefas, mazelas pessoais e a implacável preguiça me impediram de escrever como gostaria. Mas, como um bom filho pródigo, retornei, e resignado. Prometo tentar não passar tanto tempo sem postar.
4 comentários:
E se minh mãe tivesse pinto eu tinha dois pais. E tenha dito o grande profeta!
P.s. Já te disse que SE vc tivesse feito jornalismo ou qualquer outra coisa que envolva o ato de escrever MUITO bem vc estaria rico?
Ah, muleke! Vamo lá!
Primeiro, muito lindo o blog! Gostei demaiss! E ele pode até flertar com o meu! As cores lembram bastante! Mas são mais claras e deixam o espaço melhor pra leitura! (Tenho que dar um jeito nisso no meu! Chega a doer a vista!)
Segundo, amei o post. Só que eu sou das pessoas que driblam a agonia das If questions! rs E faz até bem, viu?
Terceiro, concordo com o damn! Eu te contrataria pra minha equipe! ;)
Beijo, Ferds! Aguardando o próximo post!
Adorei a volta e o texto!!
Melhor que o 'se' é trocá-lo por 'uma vez que': uma vez que minha amiga Marie foi embora pra Barcelona, pude conhecer a pessoa com quem eu iria dividir a minha vida dali pra frente.
Isso nos alivia. Acaba com a angústia causada pela imaginação do que poderia ter sido, para nos ensinar a valorizar as decisões que a gente toma agora, a cada minuto.
E já ganhou mais elogios, hein?? Viu q eu tava certa? haha
Bjos :)
Ah.. Entre a Marie ir pra Barcelona e o Vitin aparecer, existe uma loonga história e uma infinidade de decisões tomadas, mas certamente há uma sequência lógica que leva uma coisa à outra.. E vamos em frente!
Bjos de novo.
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