29.9.08

A vida por um fio (ou vários)

No meu último post, escrevi sobre os problemas causados pela dependência digital. Dessa vez, escreverei sobre um problema ainda mais chato: a falta de energia elétrica.

Não sei como é o sistema elétrico de outras cidades brasileiras, mas com certeza o daqui de BH City é uma grande merda. Excetuando-se o Centro e a região da Savassi, onde a fiação é subterrânea, no resto da cidade os fios vão pelo alto, de poste em poste. Até aí, nada demais. Mas soma-se a isso o fato de que BH é uma das cidades mais arborizadas do mundo, e os valiosos fios que dão vida à geladeira nossa de cada dia teimam em passar pelo meio das copas e galhos das nossas tão comemoradas árvores.

Não bastasse o desconforto estético, outro problema muito mais grave é causado por esse tipo de fiação: as faltas regulares de energia elétrica. É claro! Se os fios passam por entre as árvores, qualquer chuvinha ou ventania mais encorpada faz com que os fios batam contra a vegetação, e, bem mais frequentemente que gostaria, estou eu de volta à Idade Média, subindo sete andares de escada. O mais ridículo é acender velas sem a menor intenção de ser romântico.

O pior de tudo é pensar que isso acontece numa área nobre da terceira maior metrópole do Brasil, e em pleno século XXI. Mas também, num país onde em plena era digital ainda é necessário instituir um programa governamental chamado Luz para todos, até que a falta de energia faz algum sentido.

O que eu não consigo entender é a cultura brasileira de sempre optar pelo barato que sai caro. Foi assim com o nosso sistema viário - optamos pelas rodovias, que são de implantação mais barata, porém de manutenção muito mais cara e eficiência muito menor que as ferrovias - e novamente fizemos a escolha burra pela fiação aérea que, além de enriquecer alguns poucos fabricantes de postes, tem uma manutenção muito vultosa e nos deixa muito mais na mão do que a fiação subterrânea.

Me deparei com a falta de energia na última sexta-feira. Cheguei em casa, e, ao tentar abrir o portão da garagem com o controle (santa tecnologia!), nada aconteceu. Pronto, estávamos sem luz. Lá fui eu, debaixo de chuva, abrir o portão manualmente. Cansado de empurrar o pesado portão, com as mãos completamente sujas de óleo e totalmente ensopado, tive a árdua tarefa de subir os catorze lances de escada que ligam o térreo à minha casa, carregando as sacolas das compras de todo dia que havia feito.

Chegando ao lar, resolvi ligar para a CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais) para saber se a luz demoraria a voltar. A atendente ainda teve a audácia de me perguntar meu número identificador. 'Pera lá: estou molhado, cansado, puto, minha casa está totalmente escura e ela ainda queria que eu tivesse em mãos minha última conta de luz com o número identificador? Brincadeira, e de mau gosto. Depois de confirmar todos os meus dados, processo que levou uns bons dez minutos, obtive a "precisa" informação de que a energia seria religada entre 0 e 11 horas após a minha solicitação. Completamente impotente, fui degustar um cigarro na escuridão da poltrona da sala me lembrando que, há dois anos, fiquei exatas vinte e quatro horas sem luz. Um dia completo. Perdi boa parte dos perecíveis da geladeira, tomei banho frio, fiquei sem computador, TV, microondas... nem ler era possível, já que a minha provisão de velas não estava preparada para tanto tempo de uso.

Vinte minutos e dois cigarros após a construtiva conversa com a atendente, a luz voltou. Que beleza.

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